um trecho do meu livro
Cap.17
E no final estamos quase no fim deste ano. Plínio foi para o terceiro ano do ensino médio, aparentemente Zezé se matriculou em um pré- escolar e continua firme e forte nas aulas de piano – minha prima não cabe em si de tanto orgulho e minha irmã parece que se livrou de um grande peso não prestando o bendito vestibular, mas não posso deixar ela na vida mansa. Falei com um conhecido do departamento pessoal lá do hospital e ela começará a trabalhar como recepcionista e fará o cursinho a noite. Falei com o psicanalista do grupo que ela tem freqüentado e ele recomendou que ela tivesse uma ocupação. Na análise dele , pessoas neste tipo de situação devem ter algum tipo de ocupação , na mesma proporção em que não podem desviar o foco do problema. Ela entendeu a preocupação do médico , e acha que vai ser uma boa, ter uma graninha extra pra matar suas vontades de menina.
Este ultimo mês foi um tanto pesado, mas estou com a impressão de que as coisas serão um pouquinho mais tranqüilas. Olho pra porta do consultório, enquanto faço algumas anotações que tenho que enviar pro plano de saúde. Acho hilário , que por exemplo, se o plano de saúde repassa pro meu hospital , um misero cru-cru. Deste misero cru-cru , vinte centavos vão para este que vos fala. Uma bela sensação de ser explorado. Nina bate na porta , parece afônica e um tanto triste, a vi tem uma semana e depois disso mal temos nos falado. Falta de tempo, ou sei lá o que. Ela tenta sorrir:
- Oi?
- Doutora, que bons ventos a trazem a meu humilde local de trabalho- e pisco.
Ela ri, e começa a ficar segundo após segundo um tanto mais séria, como se estivesse fazendo questão de deixar absolutamente claro que o momento não é pra palhaçada. Ela senta na ponta da maca começa a brincar com o estetoscópio. Respira fundo, e em menos de dois minutos eu sou cobrado por todas as minhas ausências como namorado, como a pessoa que por muitas vezes ao invés de tomar uma atitude ; senta no sofá e fica com a cabeça entre as pernas como se estivesse em um avião em franca queda, que quer fazer tudo pelos outros e se julga absolutamente sozinho nessa missão santa, quando não vê que as pessoas que ele mau se dá conta da presença , são as que mais estão presentes. Que as minhas manias misteriosamente passaram do estágio de idiossincrasias adoráveis de um jovem precocemente ranheta, para manias de velho amargurado, que ela se cansou de esperar pelo dia que eu percebesse que ela estava do meu lado o tempo todo, e que este dia nunca iria chegar mesmo e que infelizmente ela não era mulher pra se satisfazer com simulacro de namoro. E como ultima estocada no que me restou de coração:
- Estou com você há uns seis meses e parece que eu sou viúva de uma pessoa viva.
E então ela sai pela mesma porta que entrou, e eu como sempre me reduzo a minha posição intra-fetal mais tola e previsível possível , e passo a sonhar suspirando tal qual um idiota, de como será o lindo dia em que eu entenderei as relações humanas, em que todos triunfaremos em fronte as nossas diferenças. Eu poderia dizer que assinaria uma receita minha pra eu mesmo, iria até a farmácia que era do meu pai e compraria todos os remédios tarja negro –escuro , e talvez daria um fim, nessa lesma que eu estou a me tornar , mas é aquela tal história, foda-se , vai tomar no cu , vai pra puta que te pariu japonesa desgraçada que não entende merda nenhuma do que eu estou tentando fazer, e eu sou um grande filho da puta por não estar me fazendo entender, e a minha vontade é sair por ai , e socar cada filho da puta que se puser na minha frente , e se é o meu destino ser realmente, em todas as nuances, este pau de bosta que eu sou.... Caralho.
Escrito por Mário às 21h55
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